sexta-feira, 6 de maio de 2011

Meio bossa-nova e rock'n roll

Há cinqüenta anos (quem diria que os hippies anos 60 já são quinquagenários?), cenário: Liverpool. Jovens da classe trabalhadora resolviam chamar amigos para tirar um somzinho de suas guitarras em casa. Eles podiam se orgulhar de montar uma bandinha, fosse ela qualquer, de garagem ou quintal. Os tempos eram difíceis, era realmente uma conquista. Se essa banda se transformasse numa das maiores (senão A maior) e mais influentes bandas de rock de todos as eras e locais então, esses jovens poderiam ser considerados, impreterivelmente, revolucionários! (Talvez haja aqui uma pitada de fanatismo da minha parte, mas tirando a veemência do vocabulário, o resto é fato.)
Há trinta anos (quem imaginaria que faz tanto tempo que perdemos a década de 80?), cenário: Brasil. Jovens da alta classe média resolviam fazer "barulho" não em casa, mas na rua, para serem ouvidos. Tratados não como artistas, mas
como rebeldes. Se algum desses jovens ainda morresse em pleno auge da carreira de uma causa-tabu seria mal visto pela sociedade por muito tempo, um transgressor.
De terno e cabelos alinhados, os Beatles foram a pintura mais clássica da suavização temática na música em uma época de guerras e insatisfações mundiais. Com letras positivas, cantavam o amor, a paz, a amizade e as boas novas da juventude. No Brasil, acrescentaram o
banquinho, o mar e o violão e fez-se a Bossa-Nova, romantizando o país à era da Ditadura Militar. Há os que criticam tanto os meninos ingleses quanto Tom, Vinícius e grande elenco, dizendo terem eles alienado as massas enquanto os regimes as manipulavam. Penso se não serviram também, e em contrapartida, à amenização das dores de sociedades que se viam impotentes. Não se pode negar que clássicos como "Here Comes The Sun" e "Yellow Submarine" nos transportam a um mundo outro, sorridente, alegórico.
Porém, se em matéria de temas não ouve a tão esperada revolution dos Beatles, musicalmente eles consolidaram o rock'n roll em seu formato clássico e foram os precursores de inovações técnicas, melódicas e no uso de instrumentos. Aquela que seria para sempre a música de protesto por excelência teve em seu palco-base de formação uma bateria tocada por Ringo Starr, que completou seus 70 anos nesse dia 07.
Em sete-do-sete também ocorreu, por mero acaso ou lógica intrínseca ao rock, a morte do cantor brasileiro que conseguiu unir os dois estilos que romancearam os anos 60, numa obra totalmente original, semi-revoltada, semi-romântica, meio punk, meio samba, meio bossa-nova e rock'n roll, como ele mesmo se definiu.
Cazuza, como roqueiro, despiu o terno. Literal e figurativamente. A pinta de bom moço não era com ele, e realmente não combinava com o que estaria por vir em suas letras e melodias. Anunciou os problemas do país à época da redemocratização, exigindo "ideologia" e pedindo para o Brasil mostrar a própria cara. Também teve seu lado romântico, rock-light, rock-bossa-nova, uma guitarra mais calma, mas seu romantismo era realista (não, não é paradoxo!). Falava de amor e questões internas de forma por vezes mais intimista, por vezes escancarada, expondo a hipocrisia existente em cada detalhe da vida. 
(...)
por Allets

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